15/03/2012

A perseguição ao padre Paulo Ricardo

Por falta de um sacerdote não perecerá a lei, nem pela falta de um sábio, o conselho, ou pela falta de um profeta, a palavra divina. Vinde e firamo-lo com a língua, não lhe demos ouvidos às palavras. (Jeremias 18, 18)

Ataques realizados por inimigos externos à Igreja são compreensíveis. Agora, quando os inimigos estão dentro da Igreja, dividem o pão contigo, a coisa fica feia. Padre Paulo Ricardo despontou no cenário religioso nacional como exemplo de total fidelidade ao magistério da Igreja. Coisa raríssima de se ver entre os religiosos, padres e bispos do nosso querido Brasil. Então, quando sua voz começou a ser ouvida pelos católicos e soou diferente daquelas vozes que cantam inofensivas músicas “católicas” infantilóides ou melosas, daquelas que criticam o Papa ou a tradição da Igreja e, surpreendentemente para aqueles que querem “modernizar” a Igreja, atraiu muitos jovens, o Padre Paulo Ricardo começou a causar incomodar uma parte de seus “irmãos”. Assim como a Igreja, Padre Paulo Ricardo se opõe ao marxismo, em todas as suas vertentes. Obediente às normas, é zeloso com a liturgia. Como um sacerdote deve ser, defende a doutrina católica em sua integridade. Resumindo, é fiel à Roma. Nada especial, pois é o que se espera de todos os católicos, clérigos ou leigos.

Graças a tudo isso, o padre Paulo Ricardo passou a ser perseguido por quem menos se espera – será? – por seus irmãos no sacerdócio. As suas palavras – se discutível no tom, acertadas no conteúdo – entraram como um punhal no peito daqueles que deveriam pastorear o povo e aproveitar o período quaresmal para rever suas posições e se converterem. Padre Paulo Ricardo só denuncia o que é evidente: a secularização do clero. Um grande mal que entrou na Igreja, causando escândalos e afugentando os fiéis. Seus opositores simplesmente resolveram calar o padre Paulo Ricardo. Depois de chamar o padre de “amargurado, fatigado, raivoso, compulsivo, profundamente infeliz e transtornado”, entre outros “elogios” direcionados por aqueles que afirmam fazer tudo em prol da unidade e da caridade, pedem, pura e simplesmente, que o padre Paulo Ricardo seja afastado de suas funções sacerdotais, seja calado e mantido em isolamento. Os defensores da liberdade de opinião querem calar o padre Paulo Ricardo.

Um dos temas que geraram a revolta foi o uso da batina. É claro que “o hábito não faz o monge”, mas o fato é que o traje clerical jamais foi abolido, ao contrário, segundo o Código de Direito Canônico (cân. 284) é obrigatório. E aos religiosos, segundo o cânon 669, parágrafo 1, é obrigatório o uso do hábito religioso. Porém, é raríssimo vermos um clérigo com os trajes convenientes: a batina ou o clergyman ou, para os religiosos, o hábito. Clérigos andam à paisana. É um sinal de secularização.

Nas diversas ocasiões que a Igreja foi perseguida, proibir o uso do traje clerical ou do hábito religioso foi praxe. Descaracterizar os religiosos sempre foi a primeira medida tomada por todos os governos anticatólicos na tentativa de acabar com a Igreja. Todos sabem o respeito que o povo católico tem pelos seus sacerdotes, especialmente quando são facilmente reconhecidos. Digo mais, até mesmo pessoas de outras confissões cristãs e religiões demonstram certa reverência com o sacerdote trajado como tal. Eu já presenciei este fato. Que bom quando se reconhece um padre em meio às outras pessoas.

Os padres revoltosos afirmam que o padre Paulo Ricardo promove a discórdia e a divisão da Igreja. Pois bem, onde estão as críticas àqueles sacerdotes e religiosos que atacam e desobedecem ao Papa, que pregam doutrinas contrárias à moral católica, que apóiam partidos ideologicamente anticatólicos, que cometem abusos na liturgia? Tudo isso não divide a Igreja e não gera confusão entre o povo de Deus?

O que nós, povo de Deus, queremos são pastores que defendam o rebanho e não os animaizinhos e as árvores da Amazônia, que nos defendam dos mercenários que proliferam suas heresias pelo Brasil, arrasando o rebanho de Cristo, que profeticamente condenem partidos e políticas anticatólicos, que celebrem a Santa Missa com decoro, que ensinem a doutrina católica, que estejam em plena comunhão com o pastor universal da Igreja, que se preocupem mais com as filas vazias do confessionário do que com as filas cheias dos hospitais públicos.

Enfim, rezemos pela santificação do clero. Rezemos para que o Santo Padre, o Papa Bento XVI continue sendo dócil ao Espírito Santo na condução da Igreja. Lembremos que a Reforma Gregoriana empreendida entre os séculos X e XII visava combater a secularização do clero e encontrou forte resistência. Já passamos por períodos conturbados, mas a Barca de Pedro sempre navegou segura, quando teve em seu leme um piloto como São Gregório VII ou Bento XVI.

11/03/2012

3º Domingo da Quaresma - A purificação do Templo

A Boa Notícia de Jesus Cristo:

João 2,13-25

“Respondeu-lhes Jesus: ‘Destruí vós este templo, e eu o reerguerei em três dias’”. (Jo. 2, 19)

Jesus sobe a Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa. Encontra no átrio dos gentios que era a área do Templo reservada aos não-judeus que iam a Cidade Santa adorar ao Deus de Israel um grande comércio de animais para o sacrifício e bancas de câmbio, onde as moedas estrangeiras, consideradas idolátricas por conter a efígie do imperador, eram trocadas por moedas judaicas. Este comércio que começou a ser realizado nas proximidades do Templo, logo passou para dentro, com a tolerância e provável ganho das autoridades do Templo. Jesus constata a decadência do Templo e a proximidade de seu fim material.

Como sinal, Jesus purifica aquela que seria a casa de oração para todos os povos e que havia se transformado num lugar de disputas, comércio e negociatas de todos os tipos. Com a ocupação do átrio dos gentios, o Templo fechava suas portas para os não-judeus. Mas, com a vinda de Jesus, havia chegado o fim definitivo do Templo. Este não seria mais necessário – e, de fato, seria destruído definitivamente pelos romanos no ano 70 –, pois o Templo de Deus estava entre os homens. Não um Templo construído pelas mãos humanas, mas que tinha se feito carne no ventre da Virgem Maria. “O Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”, esta tenda que remete ao primeiro templo do Deus verdadeiro, o tabernáculo móvel que acompanhou o Povo de Deus no deserto de perdurou até o reinado de Davi.

As autoridades não se opuseram ao ato de Jesus porque não era ilegal. Jesus devolvia ao Templo a sua dignidade de casa de Deus, mas os judeus querem saber com qual autoridade faz isso. E Jesus responde: “Destruam este templo e eu o reerguerei em três dias”. Ficam alarmados com tal resposta, pois é impossível reconstruí-lo em tão pouco tempo. Jesus fala de Si mesmo: anuncia Sua morte e ressurreição, cujo sentido os discípulos reconhecerão após a Páscoa definitiva; Seu corpo que será dilacerado com os açoites e na cruz. Os judeus não entendem que estão diante do Templo definitivo de Deus e que as autoridades judaicas, entregando-O aos romanos, O destruirão. Mas Jesus não ficará na morte. Este Templo não ficará em ruínas, como ficará o de Jerusalém a partir do ano 70. Jesus ressuscitará após três dias. O Templo será reconstruído e nunca mais será destruído. Jesus ressuscitará verdadeiramente em Seu corpo glorioso e jamais experimentará a morte e pela fé serão incorporados neste Templo, como pedras vivas, não somente os judeus, mas todos os povos da Terra.

04/03/2012

2º Domingo da Quaresma - A Transfiguração de Cristo

A Boa Notícia de Jesus Cristo



Marcos 9, 2-10

“Formou-se então uma nuvem que os encobriu com sua sombra; e da nuvem veio uma voz: Este é meu Filho muito amado; ouvi-O.” (Mc 9, 7)

Em caminho para Jerusalém, onde ia sofrer Sua Paixão e morte, Jesus leva três de seus discípulos, Pedro, Tiago e João ao monte Tabor e no alto do monte, revela-lhes Sua glória. Seis dias antes, Jesus havia declarado que alguns que estavam com Ele não morreriam antes de ver o poder do Reino de Deus. A transfiguração de Jesus é uma amostra da Sua glória que alcançará após a ressurreição. No monte – lugar onde Jesus se encontra na intimidade da oração com o Pai – a divindade de Jesus fica patente diante dos olhos dos três apóstolos, que mais tarde serão as colunas da Igreja.

Neste momento, aparecem Moisés e Elias e conversam com Jesus. Os representantes da Lei e dos Profetas, ou seja, todo o Antigo Testamento, conversam com Jesus sobre o que acontecerá em Jerusalém, onde será instituída a Nova Aliança em Seu sangue. Jesus queria ensinar a seus discípulos – àqueles e a nós – que não há glória sem cruz, ou melhor, a Sua crucificação já é Sua glorificação. No evangelho de São João, Jesus deixa isto claro: Sua glorificação começa na cruz. Pedro, em êxtase e amedrontado diante da cena, oferece-se para construir três tendas para os que conversavam. Queria se fixar no monte, mas a missão dos apóstolos e, consequentemente, de toda a Igreja ainda é na planície, em meio ano mundo. Foi preciso descer do monte e enfrentar o sofrimento que decorre em seguir Jesus Cristo. Podemos ter experiências com Deus que nos enche de alegria, mas jamais devemos alienarmo-nos.

Enquanto falava, uma nuvem, a mesma nuvem que enche o Tabernáculo, o Espírito Santo os envolvem e o Pai lhes fala como no dia do batismo de Jesus: Este é meu Filho amado: ouçam-no. Ouçamos Jesus. Ouçamos tudo o que Ele nos tem a dizer, porque só Ele tem palavras de vida eterna. Em Jesus, o amor de Deus se revela. Deus, não podendo nos dar mais, deu-Se a Si mesmo. E este amor revela-se em sua plenitude no sacrifício da cruz. Portanto, ouçamos o que Jesus tem a nos dizer, a nos ensinar. Nesta sociedade hedonista e imediatista em que vivemos, onde vale tudo para banir o sofrimento, sigamos o exemplo de nosso Mestre, tomemos nossa cruz que a cada dia nos é apresentada. A cruz é o caminho para a glorificação.

02/03/2012

Perseguição aos católicos na Europa

Última parte do artigo A perseguição aos católicos na Europa na primeira metade do século XX. Leia mais:




Primeira parte: Resumo e Introdução






Terceira parte: Espanha (1931-1939)



Quarta parte: Alemanha e territórios ocupados pelos nazistas

Conclusão

Concluímos, portanto, que o século XX foi o palco da destruição e expropriações de bens da Igreja Católica, da intolerância, tortura e do massacre de milhares, senão milhões, de católicos pelo simples e único fato de serem católicos, caracterizando, assim, um verdadeiro genocídio. As ideologias que sustentaram governos, partidos e instituições, tendo como herança e ponto de partida a Revolução Francesa, pretenderam eliminar a Igreja Católica do solo europeu. Maçons, liberais, positivistas, marxistas e nazistas consideravam a Igreja o grande obstáculo para o progresso dos diversos povos da Europa e, consequentemente, do progresso humano. O número de vítimas, os roubos e as destruições de igrejas e monumentos católicos na URSS e demais países comunistas, na Espanha e na Alemanha com todos os seus domínios demonstra que não houve um simples confronto de ideias contra oposicionistas ou limitações de pretensas regalias. O que houve foi uma tentativa de exterminar sistematicamente qualquer sinal da Igreja Católica em seus territórios, nem que para isso fossem assassinados milhares de seres humanos inocentes. Declarada culpada pelas atrocidades ocorridas na História ocidental, opressora e retrógrada, a Igreja Católica foi condenada à extinção e considerada um inimigo a ser abatido por todos os meios. Dessa forma, bispos, padres, freiras, religiosos e leigos foram caçados, presos, torturados e assassinados. Em pleno século XX, dois papas foram vitimas da intolerância: Pio XII livrou-se de um plano de sequestro dos nazistas e João Paulo II sobreviveu a um atentado a tiros (ROYAL, 2001, p. 16).

A impossibilidade de se chegar próximo a uma cifra das vítimas dos diferentes regimes que perseguiram os fiéis da Igreja Católica acaba por não transparecer a tragédia e a violência deste genocídio. Os números disponíveis se referem aos membros da hierarquia. Sendo alvos preferenciais, pois a destruição da hierarquia é a destruição da Igreja, se tornaram mais fáceis de ser rastreados. A perseguição aos católicos ocorrida na Europa na primeira metade do século XX, principalmente nas décadas de 1920 a 1940, não causa o mesmo interesse aos estudiosos como as práticas genocidas contra outros grupos étnicos ou religiosos, como o que sofreram os judeus, para citar como exemplo o genocídio mais emblemático. Royal (2001, p. 16) afirma que o genocídio dos católicos é relativamente pouco documentado e que a maioria dos relatos sobre os fatos foi produzida sob uma perspectiva puramente política. Para citar um exemplo, a obra O Livro Negro do Comunismo mal menciona a perseguição aos católicos. A literatura sobre o assunto é, sobretudo, produzida por autores que mantém relações com a Igreja e que não pretendem que tais massacres caiam no esquecimento e que estes não voltem a acontecer.

Mattera, apud. Socci (2003, p. 25) diz que, devido as perseguições, os católicos “contam suas vítimas aos milhares, seus fiéis sofrem torturas e humilhações de todo o tipo. Mas a opinião pública ocidental, precisamente a ‘cultura cristã’, não concede nenhuma atenção a esse drama, exceto em ambientes restritos”. O pouco interesse dos historiadores, organizações internacionais e demais agentes da mídia no assassinato de milhares de católicos ocorrido neste período que o artigo abrange e de todo o século XX se deve ao fato de a grande maioria compartilhar as ideologias que promoveram esse massacre. Exceto o nazismo que hoje é considerado crime na maioria dos países, todas as outras ideologias que serviram de motivação aos governos perseguidores têm seus adeptos nestes ambientes. Quando retratam os massacres, dificilmente a fazem com neutralidade e acabam apresentando os fatos do mesmo ponto de vista dos perseguidores: os católicos durante séculos perseguiram e mataram movidos pela intolerância, mas os jacobinos, bolcheviques e demais revolucionários mataram e destruíram em prol da justiça, retirando o obstáculo, a pedra do meio do caminho para o progresso e bem de todos (ORTÍ, 1990, pp. 393-394).

O que é visto, em regra geral, na historiografia e nos veículos da mídia são as repetições das mesmas acusações feitas à Igreja desde o Iluminismo. A força dos argumentos é tamanha que muitos membros da Igreja Católica, incluindo bispos e padres, em vez de conduzir um contra-argumento sério aos que acusam a Igreja, acabam aderindo às críticas e, muitas vezes, realizando uma autocrítica tão ou mais ferrenha, no que Messori chama de masoquismo dos católicos (MESSORI, 2004, p. 11). A divulgação do genocídio sofrido pelos católicos pode causar a comoção da opinião pública e esta passar a vê-los como vítimas, contrariando interesses político-ideológicos que tradicionalmente os apresentam como vilões.

De certa forma, a maneira como a Igreja Católica enxerga os mártires, ou seja, aqueles que são mortos in odium fidei ou in odium eclessae, pode colaborar para amenizar os relatos trágicos da perseguição. Para a Igreja, o martírio é a glória suprema, o sublime testemunho que um católico pode dar de sua fé e a imitação perfeita de seu fundador, Jesus Cristo. Enquanto os massacres vividos pelos judeus são denominados de Shoah, ou seja, destruição, desgraça, para a Igreja, a perseguição e o martírio, representam um momento de purificação, de prova de amor a Deus e aos irmãos e a cooperação com a redenção de Cristo (Lumen Gentium, 42).

Os regimes totalitários do século XX viram na Igreja Católica uma inimiga lógica e resolveram eliminá-la. Certamente, foi durante estes regimes que os católicos mais sofreram. Porém, a perseguição aos católicos continuou durante todo o século XX, em diversos países e das mais variadas formas. No entanto, não foram aprovadas leis que amparassem ou protegessem especificamente os católicos, proibindo ou criminalizando qualquer ideologia, publicação ou manifestação anticatólicas. Não há museus que preservam a memória das vítimas deste genocídio, a não ser igrejas dedicadas àquelas vítimas que foram oficialmente declarados mártires pela Igreja Católica. Entramos no século XXI sem nenhuma perspectiva no aumento da tolerância para com a Igreja Católica. Grande parte da perseguição ocorre, hoje, nos países de maioria muçulmana, mas os casos de intolerância, discriminação e violência voltam a crescer na Europa, através de sutis publicações, atos isolados de vandalismo e leis laicistas que limitam a liberdade e a consciência dos católicos. Ao conhecer o massacre pelo qual passaram os católicos europeus no século XX, estes fatos não deixam de ser preocupantes.



Referências Bibliográficas:

BLESSMANN, Joaquim. O Holocausto, Pio XII e os Aliados. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

BLET, Pierre. Pío XII y la Segunda Guerra Mundial. Madrid: Cristiandad, 2004.

CORÇÃO, Gustavo. O Século do Nada. Rio de Janeiro: Record, 1972.

DELUMEAU, Jean. Á Espera da Aurora: Um Cristianismo para o Amanhã. São Paulo: Loyola, 2007.

GRAY, John N. Voltaire: Voltaire e o Iluminismo. Coleção Grandes Filósofos. São Paulo: UNESP, 1999.

MESSORI, Vittorio. Leyendas Negras de la Iglesia. 11. ed. Barcelona: Planeta, 2004.

ORTÍ, Vicente Cárcel. La Persecución Religiosa en España durante la Segunda República (1931-1939). 2. ed. Madrid: Rialp, 1990.

________. Mártires Españoles del Siglo XX. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 1995.

RAUSCHNING, Hermann. The Voice of Destruction: Conversations with Hitler. New York: G.P. Putnam's Sons, 1940

REDONDO, Gonzalo. Historia de la Iglesia en España 1931-1939: Tomo II – La Guerra Civil (1936-1939). Madrid: Rialp, 1993.

ROPS, Henri Daniel. A Igreja das Revoluções (I). v. 8. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2003.

________. A Igreja das Revoluções (II). v. 9. Coleção História da Igreja. São Paulo: Quadrante, 2006.

ROYAL, Robert. Os Mártires Católicos do Século XX: uma História do Tamanho do Mundo. Cascais: Principia, 2001.

SOCCI, Antonio. Los Nuevos Perseguidos: Investigación sobre la Intolerancia Anticristiana en el Nuevo Siglo del Martirio. Madrid: Encuentro, 2003.

THOMAS, Hugh. A Guerra Civil Espanhola. v. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964.


25/02/2012

1º Domingo da Quaresma - Jesus inicia seu ministério

A Boa Notícia de Jesus Cristo

Marcos 1, 12-15

“E logo o Espírito O impeliu para o deserto. Aí esteve quarenta dias. Foi tentado pelo demônio e esteve em companhia dos animais selvagens. E os anjos o serviam. (Mc 1, 12-13)

Após o batismo, Jesus, impelido pelo Espírito Santo, foi ao deserto da Judeia onde passou quarenta dias em jejum e oração preparando-Se para Seu ministério. Mesmo sendo o Filho de Deus, não foi poupado das tentações – ainda que exteriores – do demônio. Como homem, venceu as tentações na obediência que faltou a Adão. Este foi tentado num jardim, onde desfrutava de todas as delícias e dominava sobre todos os animais. Aquele foi tentado no deserto, onde passou fome e os animais selvagens rondavam perigosamente. No jardim, após a desobediência de Adão, os anjos barram sua passagem. No deserto, os anjos servem a Jesus.

Sejamos como nosso Mestre. Que nessa quaresma, nos dediquemos mais à oração e à penitência. Como estamos vivendo? O que precisamos purificar em nossas vidas para que continuemos nossa caminhada cristã? Os quarenta dias que a Igreja nos propõe para um maior contato com Deus nos sirvam para aquietar o coração. O deserto, nas Sagradas Escrituras, é o lugar aonde Deus fala com o povo e com algumas pessoas em particular. É na quietude que Deus nos fala. Portanto, durante a quaresma deve-se prezar pelo silêncio, inclusive nas celebrações litúrgicas (e quanto é difícil encontramos uma Missa silenciosa...). Que abramos os ouvidos para que Deus nos fale.

Deixando o deserto, Jesus dirigiu-se para a Galileia onde dá início ao Seu ministério. Começa a pregar a conversão e a penitência. São estas as primeiras palavras de Jesus que nos chegam aos ouvidos e ao coração. Deus quer que nos voltemos para Ele e n’Ele encontremos descanso em meio a conturbação deste mundo. Para muitos, devido ao comportamento utilitarista e hedonista que domina nossa sociedade, qualquer tipo de mortificação é loucura e perda de tempo. Mas não para nós cristãos. A penitência nos ensina a liberdade e o esforço para alcançarmos o Reino de Deus. Que reflitamos sobre nossas vidas, como está nossa relação com Deus e ouvindo Seu chamado à conversão, que O sigamos.

19/02/2012

Jesus cura o paralítico

A Boa Notícia de Jesus Cristo


Marcos 2, 1-12

“Como pode este homem falar assim? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados senão Deus?” (Mc 2, 7)

Uma multidão reunia-se no interior e em frente à casa de Pedro para ouvir a pregação de Jesus. A casa de Pedro tornou-se a primeira igreja – e posteriormente tornou-se realmente uma igreja. a sinagoga de Cafarnaum ergue-se no centro da cidade, mas, lentamente, o eixo religioso da cidade muda-se para a casa de Pedro. Que este pequeno detalhe não nos passe despercebido. A casa de Pedro é a verdadeira igreja; é onde encontra-se Pedro e seus sucessores que devemos ouvir a Jesus; é a Igreja fundada sobre a fé de São Pedro a verdadeira, una e única Igreja de Deus.

A multidão é tamanha que não há mais espaço na casa. Não tem como entrar nem como sair. Todavia, aqueles quatro homens que trazem o amigo paralítico não desistem de levá-lo ao encontro com Jesus. Não desistem diante da multidão. Não pensam em voltar num outro dia com menos movimento. Talvez nem fossem de Cafarnaum, mas viessem de outra cidade trazendo seu amigo e, devido à dificuldade, não teriam outra chance. Quantas vezes paramos diante da primeira dificuldade encontrada na nossa caminhada no seguimento de Jesus Cristo.

Os quatro amigos resolvem, então, “furar a fila”. Sobem pelo telhado da casa, o descobrem e descem a maca com o doente. Jesus vendo a fé dos quatro homens perdoa os pecados do paralítico. Deus, em Jesus Cristo, veio ao encontro da humanidade perdida pelo pecado. A missão de Jesus não era outra senão tirar o pecado do mundo. O perdão dos pecados escandaliza os mestres da lei. Realmente, quem pode perdoar os pecados é Deus e com este gesto diante do paralítico, Jesus declara Sua divindade.

As curas são meros sinais de algo maior, a restituição da graça, a cura da alma que a liberta do verdadeiro mal, o pecado, que pode nos condenar eternamente. Talvez os amigos daquele paralítico ficaram decepcionados após tanto esforço quando, no primeiro momento, Jesus “apenas” o perdoa e não o cura. Vemos isto na religiosidade de hoje. A busca por curas, milagres, prosperidade financeira acaba ocupando o primeiro lugar no rol das necessidades quando só a graça de Deus nos basta. Fujamos da tentação das doutrinas imediatistas e materialistas.

11/02/2012

Jesus cura um leproso

A Boa Notícia de Jesus Cristo



Marcos 1, 40-45

“Jesus compadeceu-se dele, estendeu a mão, tocou-o e lhe disse: Eu quero. Seja curado.” (Mc 1, 41)

A lepra era a doença contagiosa – a peste – mais comum no Oriente Próximo. Como não se sabia as causas, as formas de transmissão e não havia nenhum tipo de tratamento, várias prescrições protegiam as pessoas sadias determinando o afastamento dos doentes. Para os hebreus, a lepra, além de uma doença, refletia externamente a condição de pecado do leproso. As prescrições sanitárias também passaram a ser leis religiosas. O leproso era duplamente impuro: no corpo e na alma. Dessa forma, estava excluído do convívio social em todas as suas dimensões e, o que era pior, afastado do culto, da freqüência ao Templo, em resumo, era excomungado.

Constatada a lepra pelos sacerdotes, o leproso deveria se afastar da família e das cidades, geralmente indo morar com outros leprosos que formavam comunidades isoladas. Durante Idade Média, o trato com os leprosos variavam de região para região. Em comum, o leproso também era afastado do restante da população. Havia uma cerimônia de despedida do leproso, uma espécie de funeral do doente, onde o bispo colocava um punhado de terra em sua cabeça e este, despedindo-se de seus familiares e amigos, se afastava. Em algumas cidades, os leprosos eram proibidos de entrar e os serviços religiosos eram-lhes prestados nos campos. Em outras, os leprosos podiam entrar apenas no período da Páscoa para receber os sacramentos. A Igreja jamais deixou de prestar sua assistência aos leprosos, mesmo sabendo dos riscos que seus ministros corriam. São Francisco de Assis é a prova mais conhecida do seu cuidado com os leprosos. Havia até mesmo uma ordem militar de cavaleiros leprosos: a Ordem de São Lázaro que, inclusive, combateram nas cruzadas.

De toda a forma, é injusta e anacrônica a acusação de discriminação, preconceito ou crueldade com estas pessoas. A lepra era – e é – uma doença terrível em todos os seus aspectos. Nada se conhecia sobre microrganismos que causavam doenças. Não havia tratamento – a não ser as cauterizações das feridas – e a cura da lepra só foi possível no século XX. No Brasil, as internações compulsórias e o isolamento de leprosos perduraram até a década de 1960. Era preciso proteger a todo custo as pessoas sadias.

Os sacerdotes da antiga Aliança podiam apenas constatar a lepra que era considerada uma consequência do pecado. Como não podiam curá-la, excluíam o leproso da comunidade, da vida religiosa do povo de Deus. Assim também com o pecado. A lei mosaica apenas indicava o pecado, mas não podia perdoá-lo. Jesus, Sumo Sacerdote da Nova Aliança, com a cura do leproso demonstra que vem para dar-nos a graça.

Não somente denuncia o pecado, mas pode redimir-nos dele, nos reintegrando à graça de Deus, nos fazendo membros do povo de Deus, Sua Igreja. Nos dias de hoje, graças ao relativismo, muitos perderam a percepção dos próprios pecados. Não mais conseguem sentir a alma corroída por ele. Façamos como o leproso. Aproximemo-nos de Jesus confiantes em Sua misericórdia. Por maior que seja nosso pecado, Ele nos tocará e nos libertará.

09/02/2012

Perseguição aos católicos na Alemanha e territórios ocupados pelos nazistas

Esta é a quarta parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX.



Primeira parte: Resumo e Introdução






Terceira parte: Espanha (1931-1939)



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Em 1933, após um contínuo período de conturbações sociais e políticas agravadas pela crise econômica que se abateu sobre a Alemanha, o líder do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, Adolf Hitler, chega ao poder, tendo em seu currículo a liderança de um frustrado golpe de estado na Bavária, em 1923, que lhe custou seis meses de prisão e um livro, o Mein Kampf, que continha a essência da doutrina nazista: a superioridade racial, o nacionalismo, o pangermanismo e o totalitarismo. O nazismo irá levar o mundo à guerra e seis milhões de judeus à morte nos campos de concentração.

Desde sua origem, o nazismo entra em contradição em vários pontos com a doutrina católica. Além da estatolatria, condenada pela Igreja Católica, os doutrinadores do nacional-socialismo, em sua maioria, eram adeptos do humanismo ateu e da ideia de super-homem de Nietzsche. Não havia na doutrina nazista uma linha bem definida referente à religião; uns defendiam um “cristianismo real”, sem dogmas ou instituições, muito diferente do “catolicismo judaizado”. Outros misturavam o panteísmo oriental com as teorias de Schopenhauer acerca do cosmos ou ressuscitavam velhos deuses teutônicos, adaptando-os à época. Além de todos estes pontos, a superioridade da raça ariana era o ponto que mais se distanciava da doutrina católica com seu universalismo e sua crença da igual dignidade dos filhos de Deus (ROPS, 2006, pp. 423-424).

O “cristianismo real” de Hitler era aquilo a que os nacional-socialistas se referiam como “cristianismo positivo”, em contraste com o “cristianismo negativo” das igrejas históricas. Segundo esta perspectiva, o cristianismo teria sido destorcido ao longo de toda a sua história por um “político judeu”, São Paulo, tornando-se uma religião de submissão, humildade, piedade, ascetismo e escravatura. O próprio Jesus, que, no labiríntico raciocínio nazista, não era de ascendência judaica, não tinha ensinado a religião que Paulo enxertara mais tarde nas igrejas cristãs. Pelo contrário, Jesus teria ensinado a libertação e, segundo Alfred Rosenberg, o ideólogo religioso do movimento, a livre afirmação da alma ariana racialmente pura (ROYAL, 2001, p. 187).

Todas estas teorias religiosas de Rosenberg contidas em seu livro, O Mito do Século XX, colocava automaticamente a Igreja Católica como inimiga do projeto nazista. Durante a guerra, os dirigentes nazistas acusavam a Igreja de ser aliada da Inglaterra e da URSS, mesmo tendo a Santa Sé declarado sua neutralidade. Quando a Igreja Católica protestava diante de leis e atos imorais do governo nazista, como a esterilização ou a eutanásia, por exemplo, era prontamente acusada de atuar fora de sua competência, interferindo diretamente em assuntos políticos (ROYAL, 2001, p. 188).

Diante destas acusações, a Concordata assinada em 1933 entre a Santa Sé e o Estado alemão era frequentemente desrespeitada com a alegação de que a Igreja teria a desrespeitado primeiro ao intrometer-se em assuntos políticos. O Reich procurava submeter a Igreja e limitar a liberdade religiosa. Escolas e órgãos da imprensa católica foram fechados sob a alegação de contrariarem a ideologia nazista. No final de 1937, foi decretado o fechamento de 82 instituições de ensino ligadas à Igreja, deixando 15 mil alunos sem poder receber instrução católica. Junto com o encerramento dos colégios católicos, foi dado início a uma campanha contra o ensino da religião nas escolas públicas. Como os nazistas, antes de tudo, travavam uma guerra ideológica, a liberdade de ensino era sua grande inimiga. Ao anexar a Áustria, em 1938, a primeira medida do regime nazista foi fechar as faculdades católicas e expulsar os religiosos que se dedicavam ao ensino (BLET, 2004, pp. 78-79).

Diferentemente da perseguição ocorrida em outros países, a perseguição nazista aos católicos aconteceu de maneira habilmente sutil. Segundo Royal (2001, p. 169), a estratégia era levar o povo, através de maciça propaganda, ao descrédito e ao desinteresse pela Igreja enquanto fazia acreditar que a Alemanha mantinha relações amistosas com todas as igrejas no país. Portanto, Hitler não pretendia atacar abertamente os católicos, mas afirmava:

Isto não vai me impedir de arrancar os ramos e as raízes do cristianismo e de aniquilá-lo da Alemanha. [...] Porém, é decisivo para nosso povo reconhecer uma fé judaico-cristã com a sua moral efeminada ou uma fé heroica e forte no deus da natureza, no deus do próprio povo, no deus do nosso destino, no nosso sangue. [...] Uma igreja alemã, um cristianismo alemão, é um erro. Ou se é alemão, ou se é cristão. Não se pode ser ambos (RAUSCHNING, 1940, p. 49).

Outro ponto importante na estratégia de perseguição nazista era o do não “fabricar” mártires. O comandante da SS, Heinrich Himmler afirmou, certa vez, que faria os mártires caírem no esquecimento (SOCCI, 2003, p. 17). Hitler sabia que o assassinato de católicos, ao invés de abater os ânimos, poderia surtir exatamente o efeito contrário, incentivando os fiéis ao heroísmo demonstrado pelo martírio. Apesar de afirmar que iria “esmagar a Igreja Católica como um sapo”, Hitler tinha uma estratégia bem definida de como fazer isso sem causar grande comoção popular: apresentar os católicos, principalmente os padres, como criminosos comuns diante do povo, privando-os da aura do martírio (RAUSCHNING, 1940, p. 53).

A perseguição começou a mostrar toda a sua força em 1937 após a publicação da encíclica Mit Brennender Sorge, onde o Papa Pio XI denunciava todos os abusos totalitários e antirreligiosos do nazismo. A partir de então, muitos religiosos passaram a ser presos sob a acusação comum de “linguagem perigosa” porque se pronunciavam contra a ideologia nazista. Através de malabarismos jurídicos, as autoridades nazistas denunciavam instituições e ordens religiosas por fraudes fiscais e aplicavam altas multas que as arruinavam, levando ao penhor de bens ou de imóveis. Os padres eram acusados de viver uma vida dissoluta e de cometerem abusos sexuais contra crianças e adolescentes (ROYAL, 2001, pp. 193-194).

Os nazistas apresentavam várias justificações para prenderem os membros do clero: agitação de massas, espionagem, auxílio a prisioneiros, suspeita de traição, comportamento inamistoso para com a Alemanha, apoio aos judeus, insultos ao Führer ou ao nacional-socialismo ou, por vezes, nenhuma razão. Um foi condenado por dizer às crianças na escola: “Amai os vossos inimigos”. Doze foram capturados depois de terem lido no púlpito o Leão de Münster, a obra do bispo Clemens August von Galen que condenava a eutanásia. O padre Neururer chegou a Dachau por ter “impedido um casamento ariano”. [...] De acordo com alguns companheiros de prisão, esteve crucificado de cabeça para baixo durante 36 horas (ROYAL, 2001, p. 171).

De acordo com Royal (2001, p. 174), o “crime” de todas estas pessoas era o fato de serem católicas e, por isso, colocavam-se em oposição à fé do Reich. Um agente da Gestapo chegou a afirmar durante um interrogatório que os padres eram inimigos piores que os judeus e os comunistas. Dos vinte e um mil padres católicos existentes na Alemanha durante o regime nazista, cerca de oito mil entraram em conflito direto com o Reich. Centenas acabaram presos ou mortos (ROYAL, 2001, p. 169).

Dachau foi o campo de concentração que recebeu a maioria dos presos por motivos religiosos. Padres e leigos católicos eram colocados no “pelotão de castigo”. Neste “pelotão”, comandado por um ateu sádico, os prisioneiros tinham que realizar os trabalhos mais duros e extenuantes do campo (ROYAL, 2001, p. 176).

Um sacerdote tcheco, Beduich Hoffmann, que passou, entre 1940 e 1945, por dois campos de concentração, Buchenwald e Dachau, relatou que apenas neste estiveram presos 2670 sacerdotes de, pelos menos, vinte nacionalidades diferentes, trazidos de países ocupados pela Alemanha, sendo a maioria, cerca de 1780, de poloneses. De todos os sacerdotes presos, quase 600 morreram no campo e 325 morreram durante o “transporte de inválidos”, nome dado ao comboio que partia com prisioneiros que eram assassinados em outras localidades. Dois bispos, um polonês e um francês, também morreram durante este período em Dachau (ROYAL, 2001, p. 170).

No campo de concentração de Neue Bremm, na Alemanha, os guardas escarneciam da Paixão, submetendo os padres às mesmas torturas que sofreu Jesus Cristo. Eram enjaulados junto a cães ferozes para o divertimento dos guardas (ROYAL, 2001, p. 183).

Em 1942, o comissário do Reich para a Holanda determinou que alunos judeus e católicos descendentes de judeus somente teriam aula com professores judeus. A Igreja na Holanda protestou sem nenhum efeito. Diante disso, o episcopado holandês emitiu uma carta pastoral que foi lida em todas as igrejas, protestando formalmente contra a medida. A consequência veio no mês de agosto: centenas de católicos não-arianos, entre eles todos os religiosos de origem judaica (cerca de 300) foram presos e deportados para os campos de concentração na Alemanha e Polônia. As instituições católicas de caridade foram extintas e os bens da Igreja foram confiscados na Holanda e Bélgica (BLESSMANN, 2003, p. 45). Na França, em fevereiro de 1944, 162 padres franceses foram presos pela Gestapo, dos quais 123 foram fuzilados ou guilhotinados (BLESSMANN, 2003, p. 31). Mas nada se compara à perseguição que devastou a Igreja Católica na Polônia. Delumeau (2007) retrata a perseguição assim que a Polônia foi invadida:

Ao longo do memorável mês de setembro de 1939, aproximadamente 300 mil civis morreram na Polônia. Somente em Varsóvia, onde 120 mil imóveis foram destruídos e dez mil outros fortemente atingidos, sessenta mil civis sucumbiram; o número de feridos chegou a mais de cem mil. [...] Ao mesmo tempo os santuários eram atacados, as cruzes eram quebradas, destruíam-se as imagens e as estátuas de santos, profanava-se o Santo Sacramento, os tanques derrubavam as pequenas capelas que estavam na beira das estradas. Com uma obstinação especial, destruíam-se os belos monumentos do Sagrado Coração e as estátuas de Nossa Senhora nas praças públicas. A polícia disfarçada com roupas litúrgicas organizava publicamente orgias sacrílegas, durante as quais se dançava, violentavam-se jovens, matavam-se judeus, atirava-se em estátuas de santos, quebravam-se imagens do Salvador. [...] E então. [...] a liquidação inexorável da Igreja Católica começou [...] (DELUMEAU, 2007, p. 38).

Somente no famoso campo de concentração de Auschwitz, morreram 20% do total de padres poloneses e milhares de religiosos e religiosas, sendo impossível determinar, ainda que aproximado, o número de leigos mortos no campo. Os padres eram o segundo grupo mais odiado do campo e oficiais afirmavam que fariam o possível para que eles não vivessem mais do que um mês em Auschwitz (ROYAL, 2001, p. 241). Ainda de acordo com Royal (2001, p. 261), apenas a diocese de Wlocnawek perdeu 220 padres, ou seja, 52% do clero diocesano. Frades e freiras eram abatidos a tiro por recusarem a abandonar igrejas e conventos.

Outros foram torturados, submetidos a experiências médicas, gaseados, enforcados, estrangulados, mortos na guilhotina ou por outros meios, simplesmente por se recusarem a cometer blasfêmias ou a renunciar às suas vocações religiosas (ROYAL, 2001, p. 262).

Segundo Blet, apud. Blessmann (2003, p. 31), durante a ocupação nazista foram assassinados pelo fato de serem católicos, quatro bispos, 1996 padres, 238 religiosos, 113 seminaristas e cerca de 300 religiosas.

É impossível determinar o número exato de vítimas da perseguição religiosa dos nazistas. Fora os números de membros do clero ou religiosos assassinados, talvez jamais se saiba com certeza quantos leigos foram mortos por causa de sua fé, principalmente quando estamos diante de um regime que elimina tudo o que lhe faz oposição. Mais hábil que as outras perseguições estatais, o Reich tentou eliminar a Igreja Católica acusando-a de ser inimiga do povo alemão, desobediente ao Estado e subserviente às potências estrangeiras, como o Vaticano ou a Inglaterra, tentando enquadrar suas vítimas em motivos puramente políticos. Nos territórios ocupados, as tropas nazistas puderam agir com maior violência sobre os católicos, já que estes eram simplesmente taxados como inimigos de guerra, ainda que fosse apenas um grupo de freiras, como as onze irmãs da Sagrada Família de Nazaré, assassinadas na fronteira da Belarus com a Polônia (ROYAL, 2001, p. 263).

04/02/2012

Jesus cura a sogra de Pedro

A Boa Notícia de Jesus Cristo

Marcos 1, 29-39

“Aproximando-se Ele, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los.” (Mc 1, 31)

Jesus cura a sogra de Pedro e esta imediatamente se levanta e começa a servi-los. Não serve somente ao Cristo, mas a Pedro e aos apóstolos, ou seja, à Igreja. Não existe verdadeiro serviço a Cristo sem a Igreja. Sabemos que é um sábado e, pela lei, ficava proibido que a sogra de Pedro fizesse algum trabalho. Mas a experiência que tem com Jesus faz com que conheça o significado real do dia do Senhor como dia de serviço a Deus. O Senhor do sábado está ali.

A casa de Pedro se torna o Templo naquele momento. Aqueles que trabalham no Templo servindo a Deus não transgridem o descanso sabático, portanto, a sogra do apóstolo não pode ser acusada de desrespeitar a lei judaica e nem Jesus promove tal desobediência. Outros doentes foram curados naquele dia, provavelmente eles ou seus parentes ouviram Jesus pregar na sinagoga, porém, diferentemente da sogra de Pedro, estes continuavam presos na antiga lei, vieram somente ao término do sábado. Após as curas não consta que O serviram. Somos iguais a estes ou ela?

Jesus se comove diante do sofrimento humano. Assume a humanidade com todas as suas dores e dificuldades e sentirá toda a força do sofrimento em sua Paixão e morte na cruz. Será na cruz que Cristo realizará a cura definitiva da humanidade: nos livrará do pecado que é o maior e a origem de todos os males. Não eliminará a fraqueza humana e o sofrimento que são conseqüências do pecado original, mas dará toda a força do Seu Espírito para que, em Sua graça, possamos suportá-los.

Os sofrimentos físico e psíquico continuam sendo males, porém, a partir da morte de Jesus Cristo na cruz, Deus pode tirar um bem deste males desde que unamos nossos sofrimentos á cruz de Cristo, oferecendo a Ele tudo aquilo que nos faz sofrer. O Pai não é um sádico e nem nós, cristãos, somos masoquistas. O sofrimento faz parte da natureza humana. Jesus não prometeu acabar com nossos sofrimentos e nem uma vida confortável e sem problemas para quem O seguisse. Tenhamos plena confiança em Deus sabendo “que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” e que “os sofrimentos da vida presente não se compara a glória que nos aguarda nos céus”.

29/01/2012

Jesus ensina com autoridade

A Boa Notícia de Jesus Cristo

Marcos 1, 21-28

“Maravilhavam-se da sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas.” (Mc 1, 22)

Jesus é o novo Moisés, o profeta ao qual este se referiu, que seria como ele e que Deus suscitaria para que guiasse o povo e, como ele, falaria com Deus face a face. Mas Jesus é mais do que um simples profeta e Sua relação com o Pai vai muito além do que a de Moisés. Ele é Um com o Pai e dá o sentido verdadeiro da Lei, pois é seu legislador.

Muito mais do que a Lei, Jesus traz a graça para poder cumpri-la. Este ensinamento da Lei, junto com a restauração do verdadeiro sentido do sábado e o poder sobre as forças do Mal, revelam a divindade de Jesus que escandaliza principalmente aqueles que interpretavam e aplicavam a Lei mosaica.

Ou Jesus é um louco, um herege ou realmente é o Deus verdadeiro que se fez homem. E é por isso que acaba sendo condenado: por essa igualdade com Deus. Que nos deixemos ser conduzidos por Ele.

25/01/2012

Perseguição aos católicos na Espanha (1931-1939)

Esta é a terceira parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX.

Primeira parte: Resumo e a Introdução


Segunda parte: URSS e países do Leste europeu
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A Espanha entrou no século XX seguindo sua tradição centenária de ser um dos países mais católicos da Europa. Não é possível conceber uma nação espanhola sem o catolicismo. Desde os visigodos, a Igreja marcou sua forte presença quando seus sínodos equivaliam à assembleias políticas e seus decretos tinham força de lei para todo o reino. A unidade espanhola foi construída durante a Reconquista quando os católicos retomaram das mãos dos muçulmanos a Península Ibérica. A unificação espanhola veio em 1492, com o casamento de Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que receberam o título de “reis católicos”. Era impossível saber se o orgulho do povo provinha de ser católico ou ser espanhol. A relação entre a Igreja Católica e o Estado espanhol sempre foi tão profunda que muitas vezes se misturaram, ocasionando ora prejuízos, ora vantagens para ambos.

A Espanha entra no século XX mantendo sua longa tradição católica e em franca decadência política e econômica, em nada se parecendo com a sede de um império que abrangeu todos os continentes. Era certo que o país precisava modernizar-se política e economicamente e houve a tentativa de instaurar-se uma república no início do século, trazendo consigo a herança republicana da França, com todos os preconceitos intelectuais onde pregavam que qualquer avanço político-social só poderia ser levado adiante se a Igreja fosse eliminada. Conforme Royal (2001, p. 147), os “republicanos” espanhóis eram, em sua maioria, frutos das lojas maçônicas e compunham uma amálgama de ideologias, contendo poucos democratas e muitos radicais socialistas, comunistas e anarquistas, em geral, bastante violentos e ateus anticlericais.

Após o governo estabilizador do ditador Miguel Primo de Rivera (1923-1930) e os breves mandatos de Dámaso Berenguer e Juan Bautista Aznar-Cabañas marcados por distúrbios populares e levantes, as eleições regionais em abril de 1931 demonstraram o baixo apoio popular à monarquia e, para evitar um eminente derramamento de sangue, o rei Afonso XIII abdicou e exilou-se na Inglaterra. Tinha início, assim, a Segunda República e com ela a perseguição aos católicos da Espanha, onde “em tempo algum no curso da história da Europa, talvez mesmo de todo o mundo, viu-se um ódio tão apaixonado à religião e suas obras” (THOMAS, 1964, p. 271).

Foi durante o regime monárquico que um feroz anticlericalismo começou a ganhar formas, mas seus excessos foram contidos pela ditadura. Para os republicanos, derrubada a monarquia, era o momento de extirpar a Igreja do território espanhol. A propaganda anticatólica foi disseminada por todo o país através da publicação de jornais, revistas, apresentação de peças de teatro e discursos transmitidos pelo rádio. A prática seguia o itinerário já conhecido: apresentavam a Igreja como intolerante e opositora de qualquer mudança socioeconômica na sociedade espanhola, favorecida pelo governo com diversos privilégios, proprietária de enorme riqueza enquanto mantinha o povo na pobreza através de um controle insuportável exercido sobre o comportamento das pessoas e acusada de invariavelmente se colocar ao lado dos poderosos, ricos e opressores (ORTÍ, 1995, pp. 46-49). Em resumo, a Igreja Católica era tida como a principal causa de todos os males da Espanha, inimiga da República e do povo. Esta era a imagem que os laicistas forneceram da Igreja e que penetraram na consciência das massas populares. Contudo, afirma Ortí (1995):

Às acusações lançadas pelos anticlericais e inclusive pelos políticos moderados e de direita contra a Igreja na Espanha, deve-se responder que eram, em 1931, em parte exageradas e em parte gratuitas. Uma campanha propagandística cujo ensinamento e grosseria possam parecer hoje incríveis, mas que resultaram de provada eficácia. Cunhada a imagem de uma Igreja rica, poderosa e corrompida, inimiga da República e do povo, precisamente quando a Igreja estava realizando todo o possível para encaminhar os fiéis pela via pacífica da legalidade. A riqueza da Igreja estava nos tesouros artísticos de seus templos e em seu patrimônio documental conservado em arquivos diocesanos e paroquiais, em monastérios e em conventos. Mas o clero vivia na miséria e, pese a frequentes reclamações durante a ditadura, não se conseguiu elevar justamente a dotação econômica do mesmo. No entanto, a reiterada insistência do anticlericalismo conseguiu fazer o povo crer exatamente o contrário (ORTÍ, 1995, p. 48).

A data do início da perseguição à Igreja Católica é colocada frequentemente pelos historiadores após o Alzamiento, o levante militar comandado por Francisco Franco contra o governo e que foi o estopim da guerra civil, quando a Igreja foi vista como aliada do general. Porém, mesmo sem jamais ter havido um edito de perseguição, os fatos demonstram que esta teve início já em maio de 1931, posto que “as omissões e a tolerância à violência e certa colaboração oculta ou indireta provam que o governo estava pouco preocupado com a situação dos católicos” (ORTÍ, 1990, p. 18).

Em maio de 1931, um mês após o fim da monarquia, antes do martírio dos católicos, teve início o “martírio das coisas” (CORÇÃO, 1972, p. 214). Os discursos anticlericais e anticatólicos surtiram efeito sobre as massas populares. Milícias armadas pelo governo, conhecidas como “incontroláveis” (ROYAL, 2001, p. 143) avançaram sobre as igrejas, mosteiros e conventos que foram saqueados e incendiados sem que as forças de segurança do governo ou a Guarda Civil interviessem. Quase uma centena de edifícios eclesiais foi destruída por toda a Espanha sem que ninguém fosse punido ou, ao menos, fosse processado por estes atos (ORTÍ, 1995, pp. 54-55). Até 1936, seriam 411 igrejas destruídas. A declaração do ministro da guerra, Manuel Azaña, demonstra a posição do governo diante do vandalismo generalizado: “Todos os conventos da Espanha não valem a vida de um único republicano” (ROYAL, 2001, p. 143).

As destruições e assaltos só vieram a comprovar a pobreza em que viviam os clérigos e religiosas. Enquanto se esperava encontrar grandes tesouros em ouro e dinheiro nos conventos e casas paroquiais, os despojos mostraram-se insignificantes. A riqueza da Igreja Católica consistia em seu patrimônio cultural, nas bibliotecas, nas obras de arte, na beleza arquitetônica. Justamente o que foi destruído pelos vândalos (ORTÍ, 1995, p. 19). Mas o ano de 1931 não ficou apenas marcado pelo “martírio das coisas”. De acordo com Royal (2001, p. 140), sete freiras visitandinas que tiveram seu convento incendiado em Madrid foram sequestradas e executadas por anarquistas.

Em outubro, a Assembleia Constituinte começou a debater a nova carta magna da nação. Durante os debates, a questão religiosa foi o principal, senão o único assunto. Foram propostos vários artigos anticatólicos, como o fim das escolas confessionais, a retirada de símbolos religiosos em lugares públicos, a proibição do culto público e a supressão das ordens religiosas (ORTÍ, 1990, p. 142). Os católicos republicanos se sentiram traídos, mas a despeito de todos os protestos, a Constituição da República foi aprovada em dezembro de 1931 e, no dia seguinte, Niceto Alcalá Zamora foi eleito presidente.

A legislação abertamente antirreligiosa não se fez esperar. Em 19 de janeiro de 1932, os professores nacionais receberam uma carta circular do diretor geral do Ensino Primário que lhes obrigava a retirar das escolas todo símbolo religioso, porque a escola deveria ser laica, e, em aplicação do artigo 43 da Constituição, foram suprimidos os crucifixos. Esta medida, ainda que legal, provocou grande irritação entre as numerosas famílias cristãs, que sentiram sua fé profanada e a educação de seus filhos ameaçada. Em 24 de janeiro foi dissolvida a Companhia de Jesus, já que o artigo 26 da Constituição declarou a supressão das ordens religiosas que, além dos três votos canônicos, impusessem a seus membros outro especial de obediência a uma autoridade distinta da autoridade legítima do Estado (ORTÍ, 1995, p. 60).

Continua Ortí (1995, p. 61):

Em dois de fevereiro foi aprovada a lei do divórcio e no dia seis foram secularizados todos os cemitérios. A partir de 11 de março foi suprimida a disciplina de “Religião” em todos os centros docentes. Mas a disposição legislativa mais polêmica do primeiro biênio republicano foi a Ley de Confesiones y Congregaciones religiosas, aprovada pelas Cortes em 17 de maio de 1933, com grande satisfação dos partidos de esquerda e publicada na Gaceta, em três de junho, que chegou a ser qualificada como obra mestra da República. O presidente Alcalá Zamora se negou a assiná-la até o último momento por considerá-la persecutória e apurou o tempo legal para sua promulgação até dois de junho. [...] Esta iníqua lei limitou o exercício do culto católico e o submeteu, na prática, ao controle das autoridades civis, com ampla margem para o arbítrio pessoal dos poderes municipais.

Além das disposições constitucionais, diversas leis anticatólicas regionais e municipais surgiram pela Espanha, regulando e restringindo o exercício da Igreja Católica. A Espanha vivia uma crise de governo e de ordem. Na tentativa de restaurar a governabilidade, o presidente demitiu o chefe de governo e a formação do novo contava com grande número de católicos e ministros de direita, já que a Confederación Española de Derechas Autônomas (CEDA), tinha a maioria dos deputados nas Cortes. Era o que bastava aos revolucionários de esquerda em todo o país. Acusando a direita de ser golpista, em outubro de 1934, explode a revolução socialista na Catalunha e nas Astúrias. O governo bombardeia Barcelona e em dez horas a revolução catalã é vencida. Nas Astúrias a situação se agravou. Em diversas localidades, os comitês constituídos por violentos comunistas proibiram toda manifestação religiosa e queimaram templos.

Os sacerdotes e religiosos foram considerados inimigos do povo e foi dado ordem para que fossem todos detidos. Aqueles que não puderam fugir ou esconder-se foram presos em cárceres improvisados e submetidos à múltiplas humilhações e atropelos. Não se levou em conta nem a idade, nem qualquer outra consideração. Apesar das ordens recebidas, em vários lugares foram fuzilados sem piedade, algumas vezes em meio ao ódio desatado de turbas enaltecidas ou em ocasiões em que era feita a simulação de um julgamento popular onde os comitês erigiram-se em tribunais e os juízes foram os mesmos carrascos que executaram as sentenças (ORTÍ, 1995, p. 69).

A revolução socialista nas Astúrias durou quinze dias e foi derrotada pelo governo, deixando um saldo de 34 sacerdotes e religiosos mortos. Os corpos dos religiosos eram cortados em pedaços e pendurados em frente aos açougues com os dizeres: “carne de porco” (CORÇÃO, 1972, p. 245). Porém, o pior estava por vir. Em meio à turbulência política, em janeiro de 1936, o presidente dissolveu as Cortes. Dias depois, o líder da esquerda espanhola, Largo Caballero, afirmou que a implantação do marxismo era solução para a Espanha. No mês seguinte, as eleições mostraram que a direita espanhola e a Frente Popular – uma coligação de esquerda que reunia comunistas, socialistas e anarquistas – estavam praticamente empatadas revelando a profunda divisão que se encontrava a sociedade espanhola. A Frente Popular assumiu o governo sem a devida prudência que evitaria aprofundar o racha entre os espanhóis. Em março, alguns generais se reuniram em Madrid e avisaram que interviriam se o governo não contivesse as desordens, se ameaçasse implantar o marxismo e se Largo Caballero, conhecido como o “Lênin espanhol”, fosse nomeado primeiro-ministro.

Naquele mesmo dia, cinco igrejas, um convento, um seminário e uma escola católica foram incendiados em Cádis. Outras tantas igrejas e casas paroquiais foram saqueadas. Aconteceram vários atentados contra a vida dos sacerdotes. Outros foram ameaçados, presos e expulsos de suas casas. Imóveis eclesiásticos foram desapropriados por autoridades locais e em muitas localidades houve limitações ao culto, proibição de procissões e outras manifestações religiosas. Cemitérios e sepulturas foram violados. Igrejas eram invadidas e tinham seus objetos e as hóstias profanadas. Para fomentar o ódio, acusações infundadas eram levantadas contra a Igreja, como a que, em 14 de maio, correu por Madrid: as religiosas salesianas estavam distribuindo caramelos envenenados às crianças. Incitada pelos radicais de esquerda e maçons, a turba enfurecida ateou fogo ao colégio e feriu gravemente as religiosas (ORTÍ, 1995, pp. 72-73).

Em 13 de junho de 1936, o líder da direita, Calvo Sotelo foi assassinado. Dia 18 de junho, os generais decidiram organizar um golpe de Estado e, sob o comando do general Francisco Franco, os militares e nacionalistas puseram-se em marcha (ROYAL, 2001, p. 149). Com o Alzamiento, tinha início a guerra civil espanhola e com ela um massacre de católicos jamais visto na história da Europa. À medida que Franco e seus comandados ganhavam terreno, a Espanha se dividia entre duas zonas: nacionalista e republicana. A repressão política se deu nas duas zonas e em ambas houve abusos e crueldades. Todavia, apenas na zona republicana explodiu a perseguição religiosa, já esboçada desde a fundação da República, em toda a sua fúria. A Igreja Católica foi logo acusada de fomentar e apoiar os nacionalistas, ainda que jamais tivesse se pronunciado contra a forma republicana de governo e a declaração da hierarquia católica em apoio ao general Franco ocorreu somente um ano após o início da guerra, não sem motivos óbvios, posto que a Igreja Católica, após anos de limitações, afrontas e assassinatos de seus membros, na zona nacionalista era respeitada e protegida. De acordo com Redondo (1993, p. 19), assim que chegou a Madrid a notícia do Alzamiento, igrejas e conventos foram incendiados e alguns jovens da Ação Católica foram assassinados enquanto tentavam salvar os templos.

Os assassinatos em massa de católicos não teve outro motivo senão o simples fato de pertencerem à Igreja Católica. Os republicanos negaram que havia perseguição religiosa na zona que governavam alegando que os milhares de assassinatos de padres, religiosos, religiosas e leigos foram “acidentais” ou porque eram “fascistas”. Apenas na segunda quinzena do mês de julho, foram mortos 124 padres, 12 freiras e 24 leigos em Madrid, 197 padres e três carmelitas em Barcelona, 14 seminaristas em Lérida e o bispo de Sigüenza (ROYAL, 2001, pp. 152-153).

Os atos de vandalismo, comuns desde o início da República, varreram templos e casas religiosas. Quando detidos, mesmo em flagrante, eram inocentados pelos tribunais. Ortí (1990, pp. 240-241) relata que em todas as dioceses espanholas, igrejas foram parcial ou totalmente destruídas, profanadas e saqueadas, tendo seus objetos litúrgicos roubados ou destruídos. Os lideres republicanos incitavam os milicianos a destruírem as igrejas mesmo que se encontrassem diante de obras arquitetônicas e monumentos históricos.

Neste contexto se explica os fatos violentos e sacrílegos tão graves como a profanação direta da sagrada Eucaristia, realizada de mil formas: esvaziando os sacrários, destruindo os objetos consagrados, alvejando o Santíssimo Sacramento, comendo sacrilegamente o que tinha nos vasos sagrados e bebendo utilizando-se dos cálices, jogando e pisoteando pelas ruas as sagradas hóstias, convertendo as igrejas em quadras e os altares em cocheiras para animais (ORTÍ, 1995, p. 84).

Mas, apesar de as destruições de igrejas e objetos sagrados serem chocantes, nada foi mais trágico do que o assassinato de milhares de católicos. Tendo a perseguição religiosa durante a República atingindo toda a sua ferocidade após o início da guerra, nos esclarece Ortí (1995) que:

Em toda a zona republicana, o culto público esteve proibido durante quase três anos. Nenhum templo permaneceu aberto e nenhuma cerimônia religiosa pode ser celebrada. Somente ao final da guerra, em Barcelona, existiu uma relativa tolerância para os atos religiosos privados e se permitiu a celebração pelas ruas de um funeral, com sacerdotes e cruz alçada, que serviu para que a propaganda republicana difundisse fotografias fazendo crer a existência de uma liberdade religiosa que, na realidade, nunca houve. A Igreja não existiu oficialmente no território republicano a partir de 18 de julho de 1936 até o final da guerra, mas se organizou clandestinamente. Os eclesiásticos foram assassinados simplesmente pelo que eram: os bispos de Almería, Guadix e Teruel, porque eram pastores da Igreja; as carmelitas de Guadalajara e as Irmãs da Doutrina Cristã de Mislata (Valência), porque eram freiras; e os passionistas, os claretianos, os Irmãos de São João de Deus, de La Salle, os escolápios, os marianistas e os Operários Diocesanos, porque eram sacerdotes e frades. O mesmo deve ser dito do engenheiro Vicente Vilar, de Manises (Valência), assassinado porque era um católico militante e um fervoroso filho da Igreja. Nenhum destes esteve jamais implicado em lutas políticas nem intervieram nelas (ORTÍ, 1995, p. 29).

Milicianos patrulhavam as ruas e pessoas eram detidas simplesmente porque carregavam alguma medalha religiosa ou crucifixo no pescoço. Clérigos e leigos fugiam da zona republicana atravessando a fronteira com a França ou refugiavam-se em embaixadas (ROYAL, 2001, p. 146).

Os católicos eram submetidos a todos os tipos de torturas psicológicas e físicas, mutilações e insultos. Numa reedição dos espetáculos romanos, padres e religiosos eram jogados nas arenas para serem mortos por animais, os assassinos cortavam as orelhas dos sacerdotes e as exibiam como troféus, muitos eram obrigados a engolir terços e crucifixos ou eram-lhes introduzidos nos ouvidos até que o tímpano fosse perfurado. Cemitérios foram profanados e os corpos de padres e freiras eram expostos nas ruas com escárnio (THOMAS, 1964, p. 272).

Padres, religiosos e religiosas eram arrastados para fora de hospitais, seminários e escolas, sendo que, muitas vezes, professores foram executados com seus alunos. Padres e freiras eram torturados para que renunciassem à fé gritando “Viva o comunismo” em vez de “Viva Cristo Rei”, o lema dos católicos espanhóis, inspirados nos seus irmãos perseguidos do México. Freiras eram estupradas e sacerdotes, castrados. Todas as formas de tortura e de matar foram empregadas no trato com católicos, fossem leigos ou clérigos. Nem a crucificação foi descartada (ROYAL, 2001, pp. 154-156). E Messori (2004, p. 45) afirma que a inventividade em matar dos perseguidores era tanta que “chegou-se ao extremo de recuperar barbáries cartaginesas como a de atar uma pessoa viva a um cadáver e deixá-los ao sol até ambos apodrecerem”.

Conforme relata Royal (2001, p. 159), padres, freiras e leigos eram assassinados em retaliação por alguma ação militar dos nacionalistas. Quando a cidade de Irún foi tomada, os republicanos executaram seis claretianos, em Barcelona. Em Madrid, vinte e três adoradoras foram fuziladas porque um miliciano republicano foi morto na rua do apartamento onde estavam refugiadas.

A Guerra Civil Espanhola terminou em primeiro de abril de 1939, com a vitória dos nacionalistas liderados pelo general Francisco Franco, tendo um saldo assustador para a Igreja Católica na Espanha: entre sacerdotes, religiosas e religiosos, o número de mortos chegou em 6832, destes sendo treze bispos, 4184 padres diocesanos, 2365 religiosos, 283 religiosas e vários seminaristas. Para se ter uma ideia da dimensão do genocídio perpetrado na zona republicana, as dioceses de Barbastro, em Aragão, perdeu 123 dos seus 140 padres, ou seja, 88% do total do presbitério; de Barcelona, 279 (22% do total); de Valência, 327 (27% do total) e de Madrid-Alcalá, 1118 (30% do total) (ROYAL, 2001, p. 141).

É impossível calcular o número de leigos assassinados durante a perseguição, pois ainda não existem estatísticas confiáveis. Mas, afirma Ortí (1990, p. 234), que “foram provavelmente vários milhares, haja conta dos dados oferecidos em alguns martirológios diocesanos”. Segundo Redondo (1993, p. 23), na Catalunha, a perseguição atingiu fortemente os leigos e afirma que “da Federação de Jovens Cristãos da Catalunha, que agrupava cerca de quinze mil [membros], foram assassinados mais de trezentos”. Sobre o número de leigos assassinados, assegura Sánchez, apud. Royal (2001, p. 142):

Um número incalculável de leigos foi morto por causa de sua ligação à religião, quer por serem frequentadores assíduos da igreja, quer por fazerem parte de organizações religiosas fraternas ou caritativas, quer por serem pais, mães, irmãos, irmãs ou amigos de membros do clero. Alguns foram mortos por ostentarem um símbolo exterior de fé, como uma medalha ou um escapulário. Outros foram mortos por praticarem atos de caridade, por darem refúgio a clérigos que tentavam escapar à fúria. É impossível determinar o número de leigos chacinados pela sua fé.

A maior perseguição aos católicos no século XX ainda é causa de controvérsias. Os defensores dos republicanos afirmam que as repressões à Igreja foi um mecanismo de defesa da República já que os bispos apoiavam os nacionalistas e influenciavam com esta decisão a maioria dos católicos o que, consequentemente, veio a formar a base de sustentação de uma longa ditadura fascista e sanguinária. Redondo (1993, pp. 25-26) esclarece esta controvérsia:

A pergunta que é inevitável formular, ainda que não seja de modo algum fácil de responder, é a que se deveu esta particularmente brutal perseguição religiosa. Possivelmente cabe aduzir toda uma gama de explicações possíveis: a perseguição se produz dentro de uma revolução social que, segundo o parecer de quem a investigou com mais detalhe, nos primeiros meses teve uma violência maior que a Revolução Russa, que levou os comunistas ao poder em 1917. A revolução tentava alterar radicalmente a estrutura social espanhola e, na situação precisa do país em 1936, muitos puderam pensar que um dos primeiros passos para conseguir a mudança absoluta era a eliminação da Igreja da vida espanhola e, consequentemente, o assassinato massivo de sacerdotes, religiosos e leigos. Porque tal situação chegou a acontecer, pode, de forma indireta, ter alguma culpa o mesmo clero que talvez se mostrou em excesso apegado a uma determinada concepção de vida social, a concepção cultural tradicionalista tão remissa a introduzir alguma mudança por entender que o que existia era o que tinha que existir, e além disso, para sempre. Neste sentido podem seguir aventurando-se em suposições que, em qualquer caso e em última instância, são incapazes de explicar aquele tremendo estouro de ódio e crueldade. Também deve-se levar em conta a propaganda constante e caluniosa que tantos mantinham contra a Igreja e seus ministros há mais de cem anos e em diversos setores: desde as publicações mais vulgares até os ataques sutis. De alguma maneira, como uma confirmação de todo isto, há de se lembrar que o assassinato de tão grande número de pessoas inocentes se juntou as profanações e destruição das igrejas, a destruição sacrílega de imagens, por uma espécie de afã de riscar do mapa até a última lembrança de tudo o que supusesse para o homem uma advertência de que havia algo mais do que o puramente material e tangível. Frente ao ódio antirreligioso, as advertências insistentes de que a Igreja nada teve a ver nem com a preparação, nem com o desenvolvimento do Alzamiento militar não foram já não mais escutadas, mas sequer foram ouvidas.

A despeito de um julgamento sobre o franquismo que não nos cabe neste artigo, sabendo que as perseguições e os inflamados discursos anticatólicos começaram juntamente com a República em 1931, Ortí (1995, p. 83) afirma que a grande maioria das mortes de sacerdotes e religiosos apenas teve motivações antirreligiosas, sem nenhum indício de motivação política e que as execuções em massa de católicos sem distinção de sexo, idade ou classe social demonstram que os assassinatos ocorreram fora de qualquer contexto político.

22/01/2012

Fazei penitência e crede no Evangelho

A Boa Notícia de Jesus Cristo:

Marcos 1, 14-20

“Depois que João foi preso, Jesus dirigiu-se para a Galileia. Pregava o Evangelho de Deus, e dizia: Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; fazei penitência e crede no Evangelho.” (Mc. 1, 14)

Jesus começa sua pregação na mesma linha de João Batista, mas, agora, os milagres demonstram que o Reino de Deus, Ele próprio, está próximo. Nosso Mestre, desde o princípio de Seu ministério, começa a formar Sua Igreja, chamando os primeiros discípulos que se tornarão apóstolos após aprenderem Dele. E eles deixam tudo para seguir Jesus, para se tornarem “pescadores de homens”, cuja rede sempre será este apelo à conversão para que Jesus reine em nossas vidas.

Nós também, que somos chamados a seguir Jesus, devemos deixar tudo aquilo que é um obstáculo neste seguimento, seja este obstáculo um pecado ou não. Seja qual for nosso estado de vida ou vocação, com o auxílio do Espírito Santo, busquemos fazer Sua vontade para nossa santificação.

19/01/2012

Perseguição aos católicos: URSS e países do Leste europeu

Esta é a segunda parte do meu artigo sobre a perseguição aos católicos na Europa durante a primeira metade do século XX. Leia a primeira parte que contém o Resumo e a Introdução.
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A Revolução Francesa instaurou na Europa o modelo republicano como forma de governo. Em seu bojo, trazia o anticlericalismo clássico e o laicismo radical gestados, sobretudo, nas lojas maçônicas espalhadas por todo o continente. Mesmo em regimes democráticos e republicanos, como na França, a Igreja se viu privada de seus bens. Por exemplo, desde as leis anticlericais de 1905, a Igreja na França tem a custódia, mas não a propriedade de seus templos. Em Portugal, com o advento da república em 1910, leis anticlericais e anticatólicas foram postas em prática com o confisco das escolas confessionais, a expulsão de ordens religiosas e a proibição do uso de trajes clericais em público. Porém, os multiformes ideários maçônicos seriam apenas uma pequena amostra do que poderia ser feito à Igreja se uma verdadeira doutrina com sua forma antirreligiosa de ser e agir bem definida chegasse a ser posta em prática. E este momento chegou em 1917 com a Revolução Russa e a implantação do marxismo naquela que viria a ser conhecida como a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

A oposição à religião faz parte da essência filosófica de Karl Marx. Conforme o filósofo alemão, para que o homem – medida de tudo – se liberte, é necessário, entre outras coisas, que não se prenda em dogmas e instituições eclesiásticas. Como parte da corrente do humanismo ateu, considera Deus um entrave para o livre desenvolvimento humano. Para isso, importa que desapareça a religião, a Igreja e mesmo a idéia de Deus. No conceito teleológico marxista, a religião naturalmente desapareceria com o regime capitalista, posto que é uma superestrutura deste. O movimento dialético da História se incumbiria de eliminá-la. Porém, como ainda se encontra em fase de transição para esta sociedade comunista onde o capitalismo e suas superestruturas desapareceriam, faz-se necessário uma guerra ininterrupta contra a religião e a Igreja Católica é eleita como o principal inimigo a se abater. Serão usadas as tradicionais armas do laicismo, mas se superará em métodos mais sofisticados e violentos (ROPS, 2006, pp. 39-40). É o que verificamos no primeiro país onde o marxismo se saiu vitorioso.

Apesar de a grande maioria dos cidadãos da URSS pertencer à Igreja Ortodoxa Russa, havia uma parcela não pouco significativa de católicos latinos e greco-católicos nos territórios da Rússia, Lituânia e Ucrânia. Desde o tempo dos czares, os católicos nunca tiveram plena liberdade de culto na Rússia e em diversas ocasiões foram pressionados a incorporarem-se ao patriarcado de Moscou. A violência do período stalinista levou o grande público a imaginar que as perseguições e expurgos na URSS fossem obras exclusivas de Josef Stálin. Mas, desde os primórdios do regime comunista na URSS, as perseguições aos crentes de diversas religiões se fizeram presentes, sendo mais duras contra os católicos acusados simplesmente de servirem a uma “força” estrangeira: o Vaticano.

Lênin inventou os métodos de perseguição religiosa usados por todos os regimes totalitários do século XX. Declarava Lênin, apud. Royal (2001, p. 64) sobre a religião:

A religião é o ópio do povo. Esta afirmação de Marx é a pedra de toque de toda a visão marxista do mundo no que toca ao problema da religião, todas as religiões contemporâneas, todas as igrejas e todos os tipos de organizações religiosas serão sempre vistos pelo marxismo como órgãos da reação burguesa que servem para defender a exploração e a neutralização da classe trabalhadora [...] É preciso saber como lutar contra a religião [...] Essa batalha tem que ser entendida em ligação com a práxis concreta de um movimento de classes dirigido para a eliminação das raízes sociais da religião.

Logo após a Revolução, no início de 1918, os fundos das igrejas e mosteiros foram confiscados. Templos e seminários foram nacionalizados e entregues aos sovietes locais e a Igreja passou a ser proibida de manter alguma propriedade. Publicações e bibliotecas católicas seriam dirigidas por comissários do povo. Escolas católicas passaram ao Estado ou foram fechadas. Só em São Petersburgo, 20 mil crianças católicas das 11 escolas primárias ligadas à Igreja ficaram privadas de receber educação religiosa. Um grave ataque contra a liberdade de consciência (ROYAL, 2001, p. 67).

Na grande fome de 1921-1922 que vitimou milhões de soviéticos, Lênin aproveitou a ocasião para levar a cabo o confisco dos bens da Igreja. A Santa Sé não poupou recursos humanos e financeiros, chegando a alimentar meio milhão de pessoas diariamente na URSS. Se o argumento do confisco era o de alimentar a população, o Vaticano propôs comprar os vasos sagrados e demais utensílios religiosos confiscados. Tudo em vão. A fome era somente mais um pretexto para dar continuidade à limpeza religiosa. Lênin expulsou os religiosos que alimentavam a população e ordenou a execução de membros do clero que protestasse contra o confisco, solicitando relatórios diários sobre o número de sacerdotes executados (ROYAL, 2001, p. 65).

No final de 1922, todas as igrejas de Petrogrado foram fechadas pelo exército e todo o clero, incluindo o bispo, foram presos e enviados para Moscou. Por toda a URSS, bispos e sacerdotes, acusados de agir em favor da Polônia ou do Vaticano, foram presos e enviados aos campos de trabalho forçado. Outros, brutalmente assassinados. Católicos de origem polonesa e rutenos da Ucrânia foram massacrados, outros enterrados vivos. Na costa do mar Negro, uma população católica descendente de alemães composta por 200 mil pessoas, foi deportada para a Sibéria e Cazaquistão. Mesmo com a precária situação econômica, teve início uma maciça propaganda ateísta que consumia grandes somas de dinheiro para desacreditar a Igreja com piadas grosseiras e falsas acusações contra o clero com o intuito de apresentar a Igreja como a responsável pelos males e que, portanto, deveria ser odiada. Acusados de conspiração ou atos de terrorismo (o que correspondia a ensinar o catecismo, por exemplo) as condenações iam da prisão perpétua à pena de morte. Igrejas, hóstias e objetos religiosos foram profanados. Na Ucrânia, das 68 igrejas, 52 tiveram seus objetos e fundos roubados pelo Estado (ROYAL, 2001, pp. 68-72).

Já em 1923, o número de padres católicos na Rússia caiu de 245 para setenta. Entre 1917 e 1925, duzentos mil católicos desapareceram sem deixar rastro. Em Moscou e São Petersburgo, centenas de leigos, religiosos e sacerdotes, incluindo toda a comunidade de freiras dominicanas foram presos e até hoje não se conhece seu destino final. Em 1924, não havia sequer um único bispo católico em liberdade na URSS (ROYAL, 2001, p. 73). Dez anos mais tarde, das 3300 igrejas e duas mil capelas católicas existentes na Rússia pré-revolucionária, ficaram abertas apenas duas que eram usadas pelo governo para demonstrar á comunidade internacional a liberdade religiosa existente na URSS.

Durante o regime de Stálin, o ditador levou a diante a limpeza religiosa no país. Cooptou a grande maioria da Igreja Ortodoxa Russa, principalmente após seu ato nacionalista contra os nazistas em 1943 e pressionava os católicos a abandonar Roma e aderir à Moscou. A mão de Stálin pesou principalmente sobre a Igreja Católica Grega, na Ucrânia. Em 1929, foi deflagrada uma perseguição aos padres católicos da Ucrânia. No ano seguinte, centenas de leigos e 35 padres foram presos e enviados para as ilhas Solovetski, no mar Branco, um campo de concentração para onde a maioria dos religiosos era enviada para trabalhos forçados.

Os soviéticos queriam que os prisioneiros construíssem um canal entre o mar Branco e o Báltico. Frequentemente, o trabalho consistia em ordens do dia extenuantes, que determinavam o transporte de blocos de gelo ou de neve ou o corte de madeira. A alimentação era tudo menos adequada ao tipo de trabalho e aos rigores do clima. Os barracões onde dormiam estavam de tal maneira sobrelotados que se tornava difícil respirar lá dentro. O sistema tinha sido pensado por forma a vergar lentamente os prisioneiros, com exceção dos mais fortes, extorquindo-lhes a maior quantidade possível de trabalho manual durante 16 horas por dia, sete dias por semana. Em conclusão, tratava-se de uma verdadeira escravatura (ROYAL, 2001, p. 83).

Sacerdotes e freiras eram retratados como grupos fanáticos que planejavam atos terroristas, atentados contra Stálin e o regresso ao capitalismo. Homens e mulheres da Igreja eram presos e torturados com choques elétricos e banhos frios em pleno inverno russo para que delatassem pretensos planos conspiratórios contra o regime. Sacerdotes greco-católicos tinham seus filhos ameaçados de morte. Muitos morreram nestas sessões ou acabaram seus dias num manicômio.

Em 1929, os cultos religiosos foram proibidos até mesmo nos campos de concentração. Os religiosos presos foram proibidos de usar o hábito e fornecer qualquer auxílio espiritual aos outros presos. Mas o pior ainda estava por vir. Em 1937, Stálin determinou que os ministros religiosos fossem presos “para que sejam imediatamente executados os elementos mais perniciosos através de medidas administrativas adotadas nas sessões das troikas” (WENGER apud. ROYAL, 2001, p. 63) e a medida também foi estendida aos que já estavam presos. Nicolai Yezhov, ministro de assuntos internos, se encarregou de aplicar tal determinação contra homens e mulheres da Igreja em prisões, campos de trabalho forçado, colônias e que já tivessem sido julgados por crimes ou se encontrassem em liberdade depois de cumpridas as penas. Foram rejulgados e a maioria condenada à morte (ROYAL, 2001, pp.63 e 78).

Se a perseguição à Igreja na Ucrânia já era uma realidade desde 1929, onde todos os seminários foram encerrados, os periódicos católicos proibidos de circular e as escolas católicas suprimidas, após a Segunda Guerra a situação se tornou insustentável. Acusados de colaboracionismo com os nazistas – de fato, no princípio, os nazistas foram vistos pelos ucranianos como libertadores do jugo soviético – e de serem agentes da Polônia e do Vaticano, os greco-católicos passaram a ser reprimidos sistematicamente pelo regime soviético, sobretudo na Ucrânia Ocidental, onde o número de católicos era maior.

Em 14 de março de 1945, Georgii Korpov, presidente do Conselho para os Assuntos da Igreja Ortodoxa Russa, apresentou a Stálin a Instrução 58 que propunha liquidar a Igreja Católica Grega na Ucrânia. Utilizando-se de católicos simpatizantes do regime, pressionaria os greco-católicos a unirem-se ao patriarcado de Moscou. A estratégia incluía uma série de propagandas anticatólicas acusando a Igreja Católica de colaborar com os nazistas durante a guerra e com o “império americano” no pós-guerra e, portanto, inimiga do povo ucraniano e promotora de seus males (ROYAL, 2001, pp. 102-103). No mês seguinte, os bispos se recusaram a aderir à Igreja Ortodoxa e foram presos. Somente um bispo ficou em liberdade, Teodor Romzha, que foi assassinado num hospital por uma agente da KGB disfarçada de enfermeira. A prisão era um claro sinal do destino que aguardava clérigos e leigos que recusassem a assimilação. Conforme afirma Royal (2001, p. 104), estes bispos foram condenados a longos anos de prisão. Uns morreram durante sessões de tortura, outros acabaram suas vidas nos campos de concentração.

No ano seguinte, veio o golpe final: a Igreja Católica na Ucrânia era composta por quatro dioceses, oito bispos, 2772 paróquias, 4119 igrejas e capelas, 142 mosteiros e conventos, 2628 padres diocesanos, 164 monges e 773 freiras, 229 seminaristas e mais de quatro milhões de fiéis. Foi simplesmente abolida, posta na ilegalidade. Bispos, padres e leigos que resistiram acabaram em campos de trabalho forçado, mortos pelo cansaço, executados ou exilados (ROYAL, 2001, p. 94).

Como a maioria dos registros das ações contra os católicos na URSS continuam indisponíveis aos pesquisadores é difícil afirmar quantas foram as vítimas da repressão soviética.

O que podemos, contudo, afirmar com segurança, à luz de documentos já disponibilizados, é que 344 clérigos, nos quais se incluem basicamente bispos, padres diocesanos e membros de ordens religiosas, constam dos registros oficiais como “reprimidos”. Só na Ucrânia, mais meio milhão de leigos foi preso ou mandado para o exílio interno, parte dos quais, sem dúvida, exclusivamente por motivos religiosos (ROYAL, 2001, p. 109).

Nos países comunistas do Leste europeu, os católicos eram proibidos de ascender profissionalmente. A vida daqueles que faziam parte da Igreja era obstaculizada nas universidades. As crianças eram desencorajadas a aprender religião desde o ensino primário, posto que a continuação dos estudos universitários podia ser barrada por este motivo. Os católicos formavam uma casta inferior nos países comunistas ocupando os postos de trabalho mais humildes e mal remunerados. Um verdadeiro apartheid.

Após a Segunda Guerra Mundial, o Leste europeu caiu sob o domínio do comunismo e entrou na órbita da URSS. Na Polônia, entre 1945 e 1947, mesmo anterior a perseguição aberta, cerca de duzentos padres mais influentes simplesmente desapareceram (ROYAL, 2001, p. 270). Após as eleições de 1947, o regime comunista passou a tratar a Igreja como era típico, confiscando seus bens, expropriando hospitais e escolas religiosas e proibindo publicações católicas. A propaganda governamental, assim como na Ucrânia, acusava a Igreja de colaborar com os nazistas e o clero, de imoralidades. No ano seguinte, quatrocentos padres estavam encarcerados e um entre eles já havia sido condenado à morte (ROYAL, 2001, p. 270).

Na Hungria, a Igreja Católica sempre esteve próxima ao governo e este relacionamento manteve-se com o regime comunista. Contra este improvável casamento, levantou-se o cardeal primaz da Hungria, Joszef Mindszenty, que acabou preso com outros seiscentos padres. Torturados por quarenta dias ininterruptos e ameaçados de deportação para trabalhos forçados na Sibéria, capitularam. Sendo assim, a Igreja perdeu sua força na Hungria tendo como resultado o confisco de todas as escolas religiosas e o banimento de todas as ordens religiosas húngaras fazendo com que dois mil religiosos tentassem fugir do país. Muitos foram presos e mortos (ROYAL, 2001, p. 273).

Em 1950, o governo da Tchecoslováquia eliminou as ordens religiosas transformando os mosteiros e conventos em campos de concentração onde os próprios religiosos eram mantidos presos e condenados a trabalhos forçados. Setenta e cinco por cento dos quinze mil religiosos, metade dos sete mil padres e milhares de leigos foi condenada a trabalhos forçados em regime de escravidão e enviados às minas e pedreiras do país (ROYAL, 2001, p. 277).

Na Albânia, o regime comunista aplicou os métodos de perseguição tradicional: fechou jornais católicos, confiscou bens da Igreja, nacionalizou escolas, creches e hospitais. Padres e leigos que protestavam eram presos e expulsos do país se fossem estrangeiros. A Ação Católica foi desmantelada. O governo tentou criar uma igreja nacional pressionando o clero a abandonar a comunhão com Roma. A hierarquia católica recusou com veemência. As conseqüências da recusa não demoraram a vir: padres e religiosos estrangeiros foram expulsos; em 1945, a Companhia de Jesus foi considerada ilegal; em 1947, foi a vez dos franciscanos serem banidos do país. Membros do clero foram presos, torturados e condenados à morte. Certa vez, vinte clérigos foram fuzilados de uma só vez. As execuções eram transmitidas pela rádio. Quem escapasse da morte era condenado a trabalhos forçados (ROYAL, 2001, p. 293). Em 1948, havia somente um bispo vivo e livre na Albânia. Mas não era apenas o clero que sofria todas estas atrocidades. Milhares de leigos que não se declararam publicamente contra o clero foram presos e torturados. Não se sabe o número exato de leigos executados, mas as penas variavam entre o fuzilamento e a fogueira. Em 1949, o confisco das propriedades da Igreja foi levado a cabo. Templos eram convertidos em prédios públicos. A catedral de Shkodra tornou-se um ginásio de basquete. Freiras foram expulsas dos conventos e proibidas de usarem o hábito. O governo exigiu que as instituições religiosas apresentassem suas constituições para que fossem oficializadas. Todas foram aprovadas, menos as dos católicos (ROYAL, 2001, p. 295).

Tal como todos os outros países comunistas, a Albânia declarou que a família era “reacionária” e tentou fazer com que as crianças informassem as entidades oficiais quando os pais lhes dessem instrução religiosa em casa. Os pais foram proibidos de dar aos filhos nomes “religiosos”. Uma família que rezasse o terço em casa podia apanhar cinco anos de prisão; ensinar o sinal da cruz a uma criança podia implicar um castigo semelhante. A mera posse de literatura religiosa podia levar à pena de morte. [...] Dos 156 padres existentes antes do início da perseguição, 65 foram martirizados e 64 morreram durante ou após o encarceramento (ROYAL, 2001, p. 298).

A Lituânia sempre foi conhecida pelo fervor religioso de sua população. A grande maioria do povo lituano era formada por católicos quando começaram as perseguições na década de 1940. O sentimento católico era um obstáculo ao domínio da URSS. Mais de um milhão de lituanos foram enviados aos campos de concentração soviéticos. A perseguição na Lituânia seguiu o conhecido roteiro: confisco de escolas e instituições católicas e fechamento das publicações da Igreja; o casamento religioso foi considerado ilegal e os feriados religiosos abolidos. Durante apenas um ano, “todos os padres do país experimentaram a detenção, a prisão ou os interrogatórios” (ROYAL, 2001, p. 307). Cerca de 150 dentre eles foram torturados para que abandonassem a Igreja. Vários morreram. Após a Segunda Guerra, a Igreja na Lituânia viveu um curto período de paz. Porém, a perseguição retomou sua força. Sacerdotes eram proibidos de dar assistência religiosa a prisioneiros e enfermos. Os professores eram obrigados a ensinar o ateísmo. Os seminários foram encerrados. O governo proibiu as celebrações religiosas e impôs impostos abusivos sobre os edifícios da Igreja. Todos os bispos, os superiores de ordens religiosas e grande número de padres foram presos (ROYAL, 2001, p. 309). Em setembro de 1947, os lituanos escreveram clandestinamente uma carta ao papa Pio XII denunciando as atrocidades contra o povo.

Entre os abusos especificamente religiosos, a carta refere à pressão para criar uma igreja nacional separada de Roma, a prisão sumária e o desaparecimento de padres que se recusaram a tornarem-se informantes do regime, a vigilância generalizada das atividades religiosas, a supressão de associações católicas, bem como da imprensa, das escolas, dos seminários, dos hospitais e de obras de caridade, entre muitas outras coisas. Os detidos eram submetidos a torturas e muitos deles enlouqueceram, a comida eram-lhes tirada e o sono interrompido; a sentença mais “simpática” correspondia a dez anos na Sibéria. Aqueles que sobreviviam à viagem de um mês praticamente sem água nem alimentos não duravam, regra geral, mais de cinco anos. Por meio destes meios diretos e indiretos, mas sempre cuidadosamente ocultados, os soviéticos conseguiram ver-se livres de muitos clérigos e leigos sem darem origem a célebres mártires (ROYAL, 2001, p. 309).

Em 1948, o Partido Comunista da Romênia assume o poder e impõe o regime marxista à nação. Havia um milhão e meio de católicos no país. No final do regime, restarão apenas 500 mil. A Igreja Católica na Romênia era formada por católicos de rito latino e de rito grego. O governo cooptou a Igreja Ortodoxa Romena e esta, sob pressão, convocou um sínodo para declarar que os católicos gregos estavam integrados à ela. Assim, “em 1948, a Igreja Católica Grega foi liquidada, as milhares de igrejas que detinham foram confiscadas e convertidas para o uso dos ortodoxos” (ROYAL, 2001, p. 316). Havia seis bispos greco-católicos na Romênia e todos foram presos acusados de traírem à nação por estarem a serviço de uma força estrangeira, o Vaticano. Sofriam pressão para aderirem à Igreja Ortodoxa. Todos rejeitaram e morreram na prisão. Seiscentos padres foram presos; metade deles morreu na prisão. Nos presídios, eram torturados para que se “convertessem” à ortodoxia. A inventividade das torturas era enorme: ia dos tradicionais choques elétricos e queimaduras a estadias em esgotos infestados por ratazanas. Um quarto dos sacerdotes cedeu, passando à Igreja Ortodoxa.

Não foi apenas a Igreja Católica Grega que sofreu. A Igreja Católica de rito latino era vista como “o único obstáculo à democracia na Romênia”, como afirmou o secretário-geral do Partido Comunista, Gheorghiu-Dej, “e que o governo não permitiria que os cidadãos católicos obedecessem às ordens de líderes estrangeiros, como o Papa, que agia a serviço dos Estados Unidos” (ROYAL, 2001, p. 321). Vários sacerdotes desapareceram e foram assassinados. Segundo Royal (2001, p. 322), “em junho de 1949, não havia nenhum bispo católico romano em atividade na Romênia, quase todas as igrejas estavam fechadas, os católicos romanos tinham uma marca especial no bilhete de identidade”. Dezenas de paróquias estavam ocupadas por milícias.

Apesar da violência que em nada deixa a desejar quando comparada a que sofreram outros grupos religiosos ou raciais, o número de vítimas nas perseguições aos católicos na URSS e nos países comunistas do Leste europeu ainda são desconhecidos. A historiografia pouco se ocupa em pesquisar e relatar o sofrimento imposto aos católicos nos países onde os regimes marxistas triunfaram. A memória dos inúmeros roubos, expropriações, abusos, torturas e assassinatos é mantida, sobretudo, por historiadores que tenham alguma ligação com a Igreja Católica

14/01/2012

Os Primeiros Discípulos de Jesus

A Boa Notícia de Jesus Cristo

João 1, 35-42

“Os dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus” (Jo 1, 37)

André e João eram discípulos de João Batista. Este, sabendo que tinha vindo ao mundo com a missão de preparar os caminhos do Senhor, testemunhou que Jesus era o cordeiro de Deus e lhes apontou Aquele que tira o pecado do mundo, o que fez com que imediatamente os seus discípulos O seguissem. Seguem-No sem saber direito quem realmente Ele é. Confiam nas palavras daquele que consideravam um profeta. Pensam ser apenas mais um mestre e assim o chamam.

Querem saber onde Jesus mora para que possam visitá-Lo, ouvi-Lo outras vezes. Porém, o Filho do homem não tem onde recostar a cabeça. Quem quiser ser seu discípulo, terá que viver com Ele. Jesus não tem habitação, não é o Templo sua residência. Ele próprio é o Templo, é Nele que devemos habitar, onde encontraremos repouso. Mas, para habitar no Templo do Senhor, devemos ter as mãos limpas e o coração puro. Após ficarem com

Ele algumas horas daquele dia, já percebem que Jesus não é apenas um mestre ou um profeta como São João Batista. O reconhecem e O anunciam como o Messias, o Cristo Salvador. Não nos basta apenas ouvir Suas palavras, admirá-las ou sermos ritualistas pensando que só por ir à igreja e fazer algumas orações, apesar de indispensável, seja o suficiente. Para segui-Lo temos que fazer a Sua vontade renunciando a nossa.

Após ficar aquele fim de tarde com Jesus, André sai a procura de seu irmão Simão e lhe conta que encontraram o Messias. Leva-o ao Senhor e este já, em seu primeiro encontro, troca o nome de Simão para Pedro, significando sua missão futura de ser fundamento da unidade de Sua Igreja. E este encontro pessoal com Jesus Cristo nos abre ao apostolado. Quem já experimentou este maravilhoso encontro sabe que espontaneamente surge dentro de nós o desejo de levar a todos para encontrar-se com o Cristo.

13/01/2012

O Papa que se cuide!

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL – RJ) ficou indignado após o Papa Bento XVI declarar o que todo o mundo está cansado de saber: as práticas homossexuais são pecados e não se deve promovê-las com a legalização das uniões homoafetivas. Grande novidade! Mas o deputado, pela internet, atacou gravemente o Papa: “O papa suspeito e acusado de ser simpático ao nazismo disse que o casamento civil igualitário é uma ameaça à humanidade. Ameaça ao futuro da humanidade são o fascismo, as guerras religiosas, a pedofilia e os abusos sexuais praticados por membros da Igreja e acobertados por ele mesmo. Espero que os estados laicos do Ocidente não cedam à pressão desse genocida em potencial”.

Se as declarações do Papa não foram nenhuma novidade, as acusações do deputado também não é. Aliás, são as mesmas acusações de sempre. Interessante é notar que os Papas se sucedem e as acusações continuam as mesmas: fascista não era Pio XI? Não era Pio XII, o nazista? Após a acusação do nobre deputado, pergunto eu: ele incomoda Bento XVI? De maneira alguma. A diferença entre os dois, mal comparando, está como do diabo para Deus. Acusado pela própria consciência, Jean Wyllys ataca o Papa. O Sumo Pontífice nem toma conhecimento de quem seja ele. Seu discurso foi corajosamente dirigido ao corpo diplomático do Vaticano. O deputado fala para meia dúzia de “fãs” em um ataque de chilique na internet. Como comparar o professor doutor Joseph Ratzinger, um dos maiores intelectuais e teólogo do século XX, poliglota, autor de dezenas de livros e centenas de artigos, com Jean Wyllys? Vejamos: Jean Wyllys era tido como um intelectual que participou do Big Brother Brasil – se bem que, comparado aos outros participantes, até um chimpanzé bem adestrado passa por intelectual.

Como professor (sem trocadilhos, ok), esperava-se mais de Jean Wyllys. Sua capacidade de argumentação é essa? Só isso para um intelectual? Está certo que Jean Wyllys é graduado em jornalismo, ou seja, segundo o STF, exerce uma profissão, cujo exercício não requer nem mesmo um diploma. Mas, continuemos. Como já foi dito, Jean Wyllys participo do BBB. Que professor fica três meses trancafiado numa casa? E seus alunos, como ficam nisso tudo? Parece que suas aulas não eram tão prescindíveis assim e, após vencer o programa, foi trabalhar com Ana Maria Braga. Mas também fracassou lá. Não me admira. O Louro José me parece mais inteligente. Assim, como ex-BBB, tentou a vida na política (este artigo parece coisa da Desciclopédia, mas não é).

Candidatou-se a deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro. Crendo na sua “grande” popularidade demonstrada nos milhões de votos na final do BBB, Jean Wyllys achou que ia ser moleza. Talvez se esqueceu que o mesmo público que lhe deu um milhão de reais no reality show, deu R$ 1,5 milhão para o “homofóbico” Marcelo Dourado. Resultado: recebeu pífios 13.018 votos. Não recebu os votos de protesto ou de zombaria como recebeu o Tiririca, não foi votado por ser uma pseudo-celebridade. Foi solenemente ignorado. O referido deputado não tem representatividade. Não representa ninguém. Graças à expressiva votação de seu colega de partido, Chico Alencar, foi eleito pelo quociente eleitoral e não pelo povo. Assim, Jean Wyllys quer mostrar serviço. E uma maneira encontrada foi descarregar seu preconceito contra os religiosos. Já sugeriu censurar pastores e padres. Sugeriu cassar a concessão de canais que veiculam programas religiosos que mencionem o homossexualismo. O que incomoda Jean Wyllys não são os pastores, o Papa, a Bíblia, mas sua própria condição.

Entre as falácias do paseudo-intelectual, tenho que concordar com algumas verdades. Realmente o fascismo, as guerras religiosas, a pedofilia e os abusos sexuais são ameaças para a humanidade. Mas também são o comunismo, cujo deputado é adepto, o homossexualismo, a destruição da família, o aborto e todas as formas de atentados contra a vida. A outra acusação soa até como piada: “genocida em potencial”. O que seria isso? Genocidas têm algo em especial? Creio que não. Em potencial podemos ser qualquer coisa, boas ou más. Ou não? Se procurarmos motivações para genocidas podemos analisar alguns casos específicos: há muitos historiadores que afirmam que Alexandre Magno era gay e suas campanhas pela Ásia massacraram um milhão de pessoas; o general romano Júlio Cesar mantinha relações homossexuais e exterminou a população gaulesa; o imperador Adriano, homossexual público, esmagou os judeus e extinguiu a Judeia; alguns estudos sérios apontam o homossexualismo de Adolf Hitler! Pois bem, seria o homossexualismo um desencadeador das práticas genocidas em potência dentro de todos os seres humanos? Pouco provável, não?

Vamos ao paradoxo do ex-BBB, ex-Mais Você, Vossa Excelência, o deputado federal Jean Wyllys: começa pelo nome de seu partido PSOL, Partido Socialismo e Liberdade. Convenhamos que somente numa sigla de partido os dois conceitos podem aparecer juntos. Exemplos temos aos montes e nem precisamos citar a falecida URSS: aí está Cuba, China, Coreia do Norte que não nos deixam mentir. Jean Wyllys é filiado a um partido comunista. Talvez ele se esqueça que o homossexualismo era visto pelos marxistas como a maior prova da degeneração que se encontrava a sociedade capitalista. O homossexualismo era crime previsto na constituição da URSS; em Cuba, homossexuais eram enviados para campos de trabalho forçado, mortos ou exilados. O deputado não sabe destas ações de seus correligionários? Caríssimo deputado, agradeça a Deus – caso creia Nele – por viver em um dos “países laicos do Ocidente”, no mundo livre criado pelo cristianismo, onde transar com qualquer um nem ilegal é. Que bom vivermos em plena democracia onde cada pessoa pode expressar suas ideias e opiniões. O que é certo é que Jean Wyllys passará pela Câmara como mais um deputado exótico, como o índio Juruna e o palhaço Tiririca.

Para terminar, afirmo que as acusações contra a Igreja taxando-a de homofóbica é infundada. Se a Igreja (o Papa, os bispos, os padres e demais fieis) odiasse àqueles que praticam atos homossexuais, não se preocuparia com suas almas, ao contrário, deixando-os em seus pecados, veria, com prazer, todos condenados eternamente ao inferno. A Igreja oferece outro caminho àqueles que sofrem (é exatamente esta a palavra) no homossexualismo. As pessoas homossexuais são livres, podem escolher a vida que querem viver sem patrulhamento ideológico, sem pressão de pretensos grupos que querem defendê-las. Não precisam se “assumir”, manchar suas almas. Há outro caminho: Jesus Cristo, onde todos podem viver na graça e no Espírito de Deus.